Morar Carioca do IAB está bombando
No último dia 17 de janeiro ocorreu na sede do IAB um dos mais instigantes encontros da série Cidade Integrada, debates com a sociedade. Mediado pelo jornalista Sidney Resende, o encontro reuniu a socióloga Maria Alice Resende de Carvalho da Puc-Rio, o escritor Affonso Romano Sant´Anna e o artista plástico Vik Muniz. A química destes três pensadores com uma platéia aguerrida e atenta deu um tom provocador, diversificado e instigante ao encontro.
Maria Alice iniciou lembrando o quanto é difícil estabelecer uma agenda para o debate e a definição das políticas públicas para a cidade porque a cidade mexe com afetos e com a dimensão moral.
“A cidade desperta, assim como a convocação da seleção brasileira, as opiniões mais diversas. É difícil ser consensual na discussão do problema público.”
Maria Alice Rezende de Carvalho
A socióloga continuou sua reflexão apresentando o conceito de que o problema público é aquele que mobiliza e gera uma agenda política e social, ela lembra que nos anos 70 e 80, o problema público era a favela, depois o problema passou a ser a violência e agora volta à questão da favela, o que demonstra que ela ainda não é percebida como parte da cidade, então continua o drama do que faremos com a favela. Ainda não se reconhece a cidade como o espaço misto que deveria ser na cidade do século XXI.
A partir destas ideias, Maria Alice apresentou sua preocupação com o conceito da cidade democrática.
“Temos que pensar como fazer com que uma pessoa que mora no melhor bairro da cidade e a que mora no pior bairro da cidade tenham acesso aos mesmos direitos. Esta é a cidade democrática!”
Maria Alice Rezende de Carvalho
Vik Muniz com muito bom humor apresentou algumas reflexões sobre suas experiências em diversas cidades. Nascido em São Paulo, morou muitos anos em Nova York e com residência atualmente no Rio, sempre teve o olhar voltado para entender a cidade e suas diferenças, identificar onde termina a periferia e começa o Centro, por exemplo. E neste contexto destaca a textura social, a reunião das diferenças, que existe no Rio e não é vista em nenhum outro lugar.
Para o artista:
“A cidade é onde a economia, política e a religião se encontram. A cidade é feita disso.”
Para o escritor Affonso Romano de Sant´Anna a leitura da cidade é feita a partir do lugar de onde se está (formação, experiências, vivências etc.) e por isso é importante ter claro a origem do leitor, como uma localização de seus interesses e olhares. Assim o escritor se auto localizou como um intelectual, um homem interessado em leituras. A seguir Affonso questiona o que está acontecendo hoje em nossa cidade, qual é o ponto de observação dos moradores do Rio, e complementa com a afirmação:
“As pessoas estão felizes e perplexas diante das modificações. A autoestima do carioca voltou!”
A seguir Affonso lembra que as diversas matérias, sejam elas quais forem, possuem estruturas diferentes que precisam ser consideradas na hora de intervir, assim também a favela tem uma composição que não pode ser ignorada. Não se pode intervir sem conhecer a matéria. A questão deve ser tratada considerando a técnica e a cultura. Tudo é cultura.
“Quando você tem mudanças estruturais numa cidade você esta produzindo uma maneira nova de ver.”
A cidade deve ler a si mesma, e o olhar é múltiplo, não é trabalho de apenas uma Secretaria de governo, mas de todas e de todos.
O debate teve a participação ativa do público, trazendo os debatedores para uma dimensão crítica da construção da cidade brasileira, que para muitos permanece sem planejamento, sem mobilidade, dominada pela especulação imobiliária e pelos desequilíbrios de oportunidades. Este debate de uma grande pluralidade de opiniões do público e dos convidados se estendeu durante o coquetel servido, após o evento.


