
As cidades são organismos vivos e tem personalidade própria. Uma cidade pode ter um enfoque masculino, como Londres, Nova York, Milão, São Paulo e tantas outras. São cidades onde a força, a eficiência e o racionalismo preponderam e se destacam a primeira vista. Já outras, como Paris, Sevilha e Veneza são cidades onde o romantismo e as curvas femininas se destacam. O Rio de Janeiro é uma destas cidades onde a sensualidade, o acolhimento e a leveza feminina aparecem de forma clara e evidente. Os nossos ícones naturais: ruas, florestas e montanhas são reforçados por intervenções antrópicas, como a construção de parques mirantes, (Cristo Redentor, Pão de Açúcar, Floresta da Tijuca, etc.).
As nossas calçadas de pedra portuguesa, com os seus desenhos na maior parte das vezes barrocos, são uma expressão natural de carioquice. São ícones fortes (muitas calçadas tem desenhos tombados) que devem ser reforçados, cultivados e aperfeiçoados. Fazem parte da nossa identidade.
Um dos melhores e mais espetaculares exemplos são as calçadas e calçadões da Av. Atlântica, com desenhos lindíssimos e de enorme valor artísticos do
Burle Marx. Muitas calçadas são verdadeiros murais horizontais, sobre os quais circulamos prazerosamente.
Se por qualquer razão, seja sua colocação ou má conservação, as calçadas muitas vezes ficam esburacadas e ameaçadoras, não vejo nenhuma justificativa para drasticamente eliminá-las. Vamos, ao contrário, investir na formação de calceteiros competentes que, além de colocá-las corretamente (como acontece em Lisboa e outras cidades portuguesas) façam a conservação das calçadas de forma correta e não teremos problemas, mas orgulho dos nossos artistas que nos oferecem a alegria de conviver cotidianamente com as suas obras de arte.
Por fim, quero ainda argumentar que do ponto de vista de manutenção e conservação da infra-estrutura enterrada nas calçadas, a pedra portuguesa oferece enormes vantagens sobre qualquer outro tipo de calçamento continuo onde os buracos e remendos mal feitos se tornam ainda muito piores.
Por: Arqtº Luiz Eduardo Índio da Costa
