Debate na Osterio sobre Planejamento urbano, arquitetura e segurança no Rio de Janeiro

Na última segunda feira dia 28 de maio de 2018 reuniu-se na Osterio, no Restaurante Lourenzo, no bairro do Jardim Botânico, a partir da mediação do economista Manuel Thedim, para discutir, Planejamento urbano, arquitetura e segurança na cidade, o arquiteto Pedro da Luz presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil, departamento do Rio de Janeiro (IAB-RJ), o economista Pedro Strozemberg do Instituto de Estudos da Religião (ISER), e o arquiteto e colunista do O Globo, Washington Fajardo. A propostas dos debates nesse restaurante é reunir as diferenças do pensar, tentando estabelecer harmonia e convivência num esforço auto-civilizatório.

A primeira fala a abrir o debate foi do presidente do IAB-RJ, Pedro da Luz, que destacou os quase cem anos dessa instituição da sociedade civil, fundada em 1921 na Escola Nacional de Belas Artes, como uma organização da sociedade civil. “O IAB vive da contribuição de seus associados, sem dinheiro de governos, e acredita que essa reunião de interesses em torno da cidade e das diversas formas de ocupar o espaço de nosso planeta é um dos debates mais fundamentais de nossa contemporaneidade”, afirmou o presidente do IAB-RJ. Logo após pontuou, que identificava uma virtude na política de segurança das Unidades de Polícia Pacificadoras (UPPs) exatamente por essa considerar o território como um dado concreto. Afinal, “nossa percepção de segurança não é a mesma quando estamos no Leblon ou no Morro Dona Marta”. Essa mesma impressão também vale para as políticas de educação, da saúde, do lazer, e das oportunidades, afinal os níveis de urbanidade são totalmente diferentes entre Ipanema e São Gonçalo, entre o Leblon e o Dona Marta. Essa mesma questão espacial, paradoxalmente também determinou o enfraquecimento da política das UPPs, pois, ao reproduzir mecanicamente a mesma solução do Morro Dona Marta, na Rocinha e no Alemão, esse gerenciamento não atentou para as diferenças de escala, demografia e tipologia entre esses assentamentos. Destacada a questão das UPPs, o presidente do IAB-RJ mencionou o concurso de projetos para urbanização da Rocinha vencido pelo escritório do arquiteto Luiz Carlos Toledo em 2006, que mobilizou dois seminários com a população da favela, que apontou pontos positivos e negativos do morar nessa localidade. “O esforço foi notável”, a construção do projeto com intensa participação da população, apontava para uma clara ampliação da sua auto-estima e para uma pacificação ampla com o entorno e com a cidade. No entanto, ao contrário do que se esperava, o projeto não foi integralmente implantado, em 2013 o governo do Estado do RJ anuncia a substituição dos planos inclinados da solução negociada, por teleféricos visualmente mais impactantes. A troca significa um expressivo aumento no orçamento da transformação, mudando o orçamento de R$70 milhões dos planos inclinados, para R$700 milhões dos teleféricos. A população da Rocinha se mobiliza numa enorme manifestação, que fecha a Avenida Niemyer e acampa em frente o apartamento do governador no Leblon, reinvindicando saneamento básico. Ao final, a pergunta lançada para a plateia pelo presidente do IAB-RJ foi; “Como estaríamos hoje, na área da segurança, se tivéssemos perseverado no projeto e no planejamento estruturado pelo escritório do Toledo?

Logo após essa fala inicial, a palavra foi franqueada ao economista Pedro Strozemberg, que destacou e homenageou o também economista André Urani, ex presidente do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (IETS), “um batalhador pelo trabalho disseminado nas pequenas empresas e pequenos investidores”. Pedro Strozemberg mencionou também a proximidade do processo eleitoral do país, reafirmando os méritos dos riscos da democracia, seja para o campo mais progressista ou mais conservador do nosso espectro político. Em seguida, destacou a melhora verificada nas condições do Estado do Rio de Janeiro, a partir de meados dos anos noventa até a primeira década dos anos 2000, com uma melhoria nos índices de desenvolvimento econômico. Strozemberg destacou o alinhamento das estâncias governamentais, nos âmbitos federal, estadual e municipal, que passaram a atuar de forma mais integrada para fomentar o desenvolvimento do Rio de Janeiro. No entanto, sublinhou que essa sensação de maior desenvolvimento acabou significando também uma maior exclusão, ficando ao final uma sensação de que o planejamento e a arquitetura promovidas no período foram fator de gentrificação, e de aumento da insegurança. Strozemberg concorda com a adequação da política de segurança das UPPs, apresentada pela primeira fala, no entanto salientou que elas tiveram um alto custo para o Estado, e não representaram estruturalmente uma mudança significativa de direção e encaminhamento. O economista também destacou o esforço feito pela Câmara Metropolitana, no Plano de Desenvolvimento Urbano Integrado (PDUI) para a macro região de 21 municípios polarizados pelo Rio de Janeiro, que muito além das pequenas divergências deve ser mantido como política contínua de Estado pelos eleitos na próximo pleito. Strozemberg colocou como principal desafio para as próximas administrações, a superação da atual sensação de insegurança vivida por todos os cidadãos do Estado; “como obter segurança, e ao mesmo tempo distribuir renda?” A questão envolve a concepção de uma polícia republicana, “onde o bordão: missão dada é missão cumprida é pautado pela justeza dos procedimentos adotados.”

Ao final a fala foi franqueada ao arquiteto Washington Fajardo, colunista do O Globo, que iniciou também homenageando André Urani, como um pensador notável, que nos faz muita falta. Logo em seguida, citando o designer canadense Bruce Mau, que identifica nas catástrofes, como a queda de um avião um enorme potencial para mudança de rumos e direção, manifestou-se; “o Brasil vive de certa forma essa catástrofe, ou tempestade perfeita desde 2013, manifestações, lavajato, impeachment, etc…” Fajardo aponta a necessidade absoluta de uma clareza da dimensão territorial dessa crise, que ainda mantém índices urbanos muito ruins, não só na área da segurança, mas também do saneamento e das infraestruturas urbanas. O arquiteto identifica um certo esgotamento do projeto nacional desenvolvimentista junto com a estética modernista, que sempre recorre a lógica da escala monumental e do mundo industrial. Nessa perspectiva, no Brasil temos leis para tudo, apesar da informalidade continuar se expandindo em todas as direções, determinando uma desconfiança generalizada de tudo quanto é ação do governo. “Daí minha preferência pelo termo agenciamento urbano à expressão planejamento urbano, que parece sempre envolver uma lógica totalizante da grande escala, que escapa ao cotidiano do cidadão comum.” Para Fajardo é necessário recuperar a dimensão da qualidade do tempo na cidade para libertação das oportunidades afetivas do indivíduo, libertando as diversidades de experiências no cotidiano de cada um.

Logo após, Manuel Thedim fez um resumo das falas destacando o novo mundo do trabalho contemporâneo, que se liberta da repetição e celebra a criatividade, a empatia e a afetividade, determinando fortes impactos sobre o território da cidade. Para o economista, o habitar se aproxima do trabalho, demandando da gestão a dispersão das oportunidades de forma equilibrada por todo o território. Manuel ainda destacou a absoluta centralidade na cidade metropolitana do Rio de Janeiro da Baía de Guanabara, como um acidente geográfico conformador, mas também como uma oportunidade. Em seguida, o mediador Manuel Thedim franqueou ao público a palavra, submetendo os debatedores a uma série de perguntas relevantes e adequadas.