Hubert Klumpner:“As cidades do século XXI serão construídas sobre as que já existem”

Não há uma fórmula pronta que resolva o problema dos transportes e do desenvolvimento sustentável nas cidades das multidões. Mas, de acordo com o arquiteto suíço Hubert Klumpner, participante do Simpósio Brasil-Suíça, seja no “barrio” de San Agustín, em Caracas, na favela de Paraisópolis, em São Paulo, ou no Pavão-Pavãozinho, no Rio, respeitar as pré-existências é a primeira condição para começar qualquer tipo de mudança.

“É preciso dizer não à erradicação do que já temos. As cidades do século XXI serão construídas sobre as que já existem”, argumenta Klumpner, professor de Arquitetura e Projeto Urbano na Faculdade de Arquitetura do Swiss Institute of Technology (ETH) e diretor do Slum Lab, da Universidade de Columbia, em Nova York.

Klumpner defende que nessas aglomerações “informais” é necessário consolidar a infraestrutura, criando focos de atividade urbana. Qualquer distinção entre a cidade formal e a informal deve ser cada dia menos usual. Ao contrário: a informalidade pode servir como laboratório para o estudo da adaptação e da inovação no design e na arquitetura.

A partir de 2004, o “barrio” de San Agustín, em Caracas, na Venezuela, começou a receber estudos para uma intervenção de “acupuntura urbana”. A proposta governamental inicial, de inclusão de vias no meio do barrio, não foi bem aceita pela população, que tinha sua própria convicção sobre o que deveria ser feito. “Eles queriam acesso, mas não estrada”, diz Klumpner. Daí surgiu a proposta de interligar cinco pontos da favela com estações de teleféricos, que funcionam gratuitamente. Próximo a cada uma das estações, passaram a ser ofertados serviços e foram construídos prédios com espaço para esportes, lazer e, eventualmente, habitação.

Da mesma forma, a intervenção feita pelo arquiteto no Grotão, em Paraisópolis, criou núcleos de oferta de serviços – de centros comunitários a campos de futebol, além de pontos de ônibus e mercados. “Não existem cidades 100% sustentáveis”, avalia Klumpner. “Mas é preciso reconhecer que as pessoas começaram a viver nelas antes de qualquer planejamento ser feito”.