Mão escondida projeta
arquitetura medíocre
Jorge Wilheim
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Ao examinar os projetos
imobiliários que abundam em nossos jornais, noto que ultimamente a cor verde
predomina: oferece-se à venda a paisagem vista da janela - um parque longínquo
ou o jardim, por vezes bem elaborado, que constituirá o verde privativo de quem
pode. Recentemente até se oferece um simulacro de vida urbana, ao propor-se -
imaginem! - uma rua, como aquelas de verdade - lembram? - em que as crianças se
conheciam e brincavam; agora, porém, rua privativa, também para quem pode. Em
alguns casos se oferece um centro esportivo ou um spa,
de diminutas proporções, só para mencionar.
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Simulacro de paisagem
urbana, simulacro da sociedade reduzida a condôminos, simulacro de cidade.
Parece que o mercado, mesmo usando sua mão escondida - diferente da mão
invisível de Adam Smith (1723-1790), segundo o qual ela transformaria
interesses individuais em bens sociais -, ainda não conseguiu apagar a
lembrança de que a propriedade a ser vendida se situa numa cidade real, gerando
um simulacro, exclusivo e excludente. Não nego a demanda por segurança que está
na sua origem, mas questiono a falta de criatividade
das soluções.
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Quando plantas dos
apartamentos são publicadas, espanta-me a similitude dos programas e
dimensionamentos: parece que há um único protagonista a desenhar com sua
"mão escondida" todas as plantas, com iguais dimensões dos quartos,
denominações sempre que possível em inglês e a presença inevitável, esta
brasileira, da churrasqueira.
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O que não se publica é o
nome do arquiteto autor desses projetos! A "mão escondida" o apagou,
seja por não considerá-lo importante a ponto de figurar ao lado do decorador,
do paisagista e dos realizadores do empreendimento; seja porque o próprio arquiteto
não se sinta à vontade com o resultado. Se arquiteto existe, como entender,
tiradas poucas exceções, o descaso com a estrutura e com a fachada, geralmente
um aplique colado, muitas vezes imitando um paupérrimo estilo neoclássico?
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Ao percorrer a cidade,
vejo, com espanto, o resultado disso: um descalabro
arquitetônico, na profusão grotesca e gigantesca de fachadas sem caráter, uma
acúmulo de mediocridade preenchendo a paisagem urbana, num completo descaso com
a rua em que cada prédio se localiza, ao atulhá-la com trânsito que não pode
suportar e uma seqüência de grades, muros, muralhas com guarita, por vezes
parecendo-se com presídios. Expressão voraz e predatória do privado
não-urbano, recusa da cidade e da vida societária, exclusão ostensiva de tudo o
que é público, de todos.
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Onde estão os arquitetos
herdeiros de mestres da arquitetura residencial? Não mais se encontram, e
perdoem a generalização, pois exceções certamente
existem, projetos que emulem os esplêndidos edifícios Esther
(Vital Brasil), Prudência (Rino Levi), Louveira (Artigas), General Jardim (O. Bratke),
Mena Barreto (Aflalo e Gasperini),
Guaimbé (Mendes da Rocha), Higienópolis (Heep), Sto. André (Pilon), Copan e Eiffel (Niemeyer) - todos exemplos de boa
arquitetura, forte identidade, criatividade, bom ambiente para os seus
moradores, enriquecendo a paisagem de suas ruas. E, na ocasião, bem vendidos,
com lucro para seus empreendedores...
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Enquanto os edifícios
residenciais de hoje se apresentam uniformes e medíocres, de autoria anônima, a
cidade apresenta bons projetos comerciais e institucionais, revelando a
existência de empreendedores mais generosos e o trabalho sério de excelentes
arquitetos(...)
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Há, portanto, salvação
possível. Os empreendimentos poderão produzir lucro mesmo com projetos bons,
livres da mão escondida que impõe programas,
dimensões, estilos. Para fugir da mediocridade haveria alguns passos a dar.
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Do lado dos empreendedores
- embora a lógica do sistema os leve a não se preocuparem com a cidade, e sim
apenas com o lote -, tomar consciência de que o campo de ação de seu negócio
ficará mais restrito e mais caro à medida em que, por
sua ação predadora, ruas e bairros forem sendo destruídos. Por outro lado, se o
corretor de vendas ou quem contabiliza o investimento substituir os arquitetos
nos momentos cruciais de elaboração de projetos, põe-se a perder a principal
contribuição desses profissionais.
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Do lado dos arquitetos,
estranho o silêncio obstinado das entidades de classe, dos críticos de
arquitetura, da imprensa especializada. A Associação Brasileira de Escritórios
de Arquitetura (Asbea) - de cuja criação participei - limita-se a se alinhar ao lado da associação de
seus clientes, o Sindicato das Empresas de Compra, Venda, Locação e
Administração de Imóveis (Secovi), sem respeitar a
natural diferença de enfoques e de interesses a defender. Pois nem sequer
exigem que o nome do autor de projeto seja obrigatoriamente enunciado...
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Compreende-se que o
Sindicato dos Arquitetos permaneça silencioso nesta questão, pois a precariedade de contratação e o elevado número de profissionais
concorrentes não estimula o debate, arriscando o emprego. Mas não
compreendo o silêncio do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), veneranda
instituição presente em momentos decisivos de nosso desenvolvimento, que
tergiversou na discussão do Plano Diretor Estratégico e agora silencia no
momento em que este é ameaçado de desfiguração, deixando a tarefa a outras
organizações da sociedade civil. Seu papel tradicional em defesa da arquitetura
e da cidade, papel cultural e social, deveria levá-lo a levantar os problemas
que aponto neste artigo, liberando-me, aliás, do constrangimento de
escrevê-lo...
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Jorge Wilheim
é arquiteto e urbanista
http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20080702/not_imp199109,0.php