
ARTIGO
- OPINIÃO
17
de Abril de 2009
“MUROS QUE PREOCUPAM”
Luiz
Fernando Janot
Arquiteto
Urbanista
Professor da
UFRJ
Apesar de reconhecer a dificuldade do poder
público para atuar de maneira eficaz nos territórios dominados pelas diversas facções
que controlam o tráfico de entorpecentes ou pelas milícias que atuam no
comércio ilegal de imóveis, na distribuição de gás e no transporte público alternativo,
podemos afirmar que algumas soluções anunciadas recentemente para controlar a
expansão dessas comunidades não passam de paliativos diante dessa perversa
realidade.
O chamado poder paralelo, encastelado em praticamente
todas as comunidades populares, vem estendendo os seus tentáculos por quase toda
a cidade e promovendo, direta ou indiretamente, assaltos à mão armada nas ruas,
residências e estabelecimentos comerciais, roubos de cargas e veículos e os
famigerados seqüestros relâmpagos. Presenciamos uma espécie de ditadura cruel e
implacável que interpõe seu poder aos cidadãos desqualificando os princípios
que devem reger a vida numa cidade democrática. O agravamento vertiginoso desse
quadro vem despertando o medo generalizado na população e, consequentemente, a
idéia de que a segurança só se encontra em espaços fechados ou de acesso
controlado. Compromete-se dessa forma a vida nos espaços públicos tradicionais.
Na verdade, a segregação no espaço urbano
não é um fato novo. Na Idade Média a cidade se fechava para os perigos externos
através de muralhas periféricas, enquanto hoje nota-se que algumas cidades
contemporâneas se fecham em si mesmas criando espaços restritivos de convivência
entre os seus próprios habitantes. Talvez essa tendência seja um prenúncio lamentável
da construção de um “apartheid” social na cidade onde sobressaem
os muros, as grades e as cercas eletrificadas que comprometem ostensivamente a
imagem visual da paisagem urbana.
Uma cidade como
o Rio de Janeiro não se melhora espacialmente apenas pela vontade política ou por
soluções urbanísticas adotadas sem atentar para o impacto que podem causar no
meio ambiente e no desenvolvimento harmonioso da cidade. O assunto é complexo e
merece uma apreciação mais abrangente. Não será a construção indiscriminada de
muros que irá reverter questões estruturais que existem por trás da expansão
das favelas. Um grande muro periférico envolvendo as comunidades instaladas nos
morros para conter a sua expansão e preservar as reservas florestais no seu
entorno é uma proposta simplista e comprometedora visualmente da própria
paisagem que se quer ver preservada.
Há que se controlar a expansão
desenfreada das favelas, mas não dessa forma. É bom que se atente para o fato
de que esses muros de blocos de concreto irão constituir, na prática, uma das
paredes das casas que serão construídas neles encostadas. E, certamente, serão
casas com mais de um pavimento com janelas – e portas, quem sabe? – abertas
para as áreas verdes que se deseja proteger. Cria-se um ciclo vicioso. Além do
desperdício de verba mal aplicada, entendemos que esses recursos poderiam ser
destinados à implantação de melhorias na infra-estrutura e na construção de
equipamentos de interesse social para tais comunidades.
Ao invés dos muros de concreto seria
mais simples, mais econômico e mais útil criar uma faixa periférica de terreno non aedificandi com
largura compatível e acompanhando uma cerca limítrofe construída com material
ecologicamente adequado. Essa faixa seria demarcada por meio de uma cobertura
vegetal rasteira integrada ambientalmente com a reserva florestal em seu
entorno e poderia destinar-se eventualmente à construção de escadarias, plano
inclinado ou local para implantação das redes de infraestrutura
para a própria comunidade. Além de tudo, por se tratar de um espaço livre, facilitaria
a observação à distância e o acesso por parte do poder público para controlar a
expansão territorial através de ocupações irregulares.